Você já parou pra pensar que a mesma questão do ENEM pode aparecer como a número 47 no caderno Azul e a número 89 no caderno Branco? Pois é, o ENEM embaralha as questões entre os cadernos de cores diferentes como medida de segurança.
Mas aqui vai a pergunta de ouro: se uma questão aparece no começo da prova pra um aluno e no final pra outro, a nota dos dois é calculada da mesma forma?
Em 2016, uma pesquisa acadêmica descobriu que não. A posição da questão na prova estava influenciando o cálculo de dificuldade do item. Quem pegava questões difíceis lá pro final quando o cansaço já tinha batido, era penalizado.
A XTRI analisou a fundo os dados oficiais do ENEM 2024 pra ver se isso ainda acontece. E o resultado é animador. Vamos explicar tudo aqui, sem fórmula, sem jargão do jeito que dá pra contar no jantar de domingo.
O que é o efeito de posição?
Imagina o seguinte cenário: são 16h de um domingo, você já respondeu 80 questões, e aparece uma de Física sobre termodinâmica. Difícil? Talvez. Mas será que ela parece mais difícil simplesmente porque você tá exausto?
Esse fenômeno tem nome: efeito de posição. É a ideia de que os parâmetros de um item podem variar de acordo com o lugar onde ele aparece na prova. Os pesquisadores identificam quatro causas principais:
Efeito de aquecimento: no começo da prova, o candidato precisa de tempo pra se adaptar ao formato do exame. As primeiras questões podem parecer mais difíceis só porque você ainda não “esquentou”.
Efeito de aprendizado: conforme avança na prova, você vai pegando o jeito identifica padrões, entende melhor o estilo das questões, fica mais estratégico.
Efeito de fadiga: depois de horas respondendo, o cansaço acumulado cobra seu preço. Sua capacidade de concentração cai, e questões que você acertaria de manhã viram armadilhas à tarde.
Falta de tempo: as últimas questões sofrem com a pressão do relógio. Muita gente chuta as finais não porque não sabe, mas porque simplesmente não deu tempo de pensar.
O problema é sério: se esses efeitos distorcem a estimativa de dificuldade dos itens, a nota calculada pela TRI pode não refletir o conhecimento real do candidato. É como se a prova fosse diferente dependendo da sorte no caderno que você pegou.
O que descobriram em 2016
Um grupo de pesquisadores liderado pelo pesquisador Franklin L. M. analisou dados de 51.585 candidatos do Ceará na prova de Ciências da Natureza. Eles pegaram itens que apareciam em posições diferentes nos quatro cadernos — Azul, Amarela, Rosa e Branca — e mediram os parâmetros de cada um usando o modelo logístico de 3 parâmetros (o mesmo que o ENEM usa).
Pra ter uma ideia da variação, olha só onde os mesmos itens apareciam em cada caderno:
| Item | Azul | Amarela | Rosa | Branca |
|---|---|---|---|---|
| Item 1 | posição 47 | posição 59 | posição 62 | posição 89 |
| Item 2 | posição 46 | posição 58 | posição 61 | posição 88 |
| Item 3 | posição 48 | posição 60 | posição 63 | posição 90 |
| Item 4 | posição 64 | posição 78 | posição 56 | posição 72 |
| Item 5 | posição 65 | posição 79 | posição 57 | posição 73 |
O resultado foi preocupante: o mesmo item tinha parâmetros de dificuldade (B) diferentes dependendo do caderno. A variação chegou a 0,9 na escala TRI – Teoria de Resposta ao Item o que é bastante significativo.
Traduzindo pro português…rsrs: itens administrados no final da prova geralmente pareciam mais difíceis do que os mesmos itens quando apareciam no início. Dois alunos com exatamente o mesmo nível de conhecimento poderiam tirar notas diferentes simplesmente por terem recebido cadernos de cores diferentes.
Isso violava um princípio fundamental da TRI: a invariância dos parâmetros. Ou seja, o parâmetro de um item deveria ser o mesmo independentemente de quem responde ou onde ele aparece. E não era.
E o que a XTRI descobriu em 2024?
Aqui é onde a história fica boa.
A XTRI analisou os dados oficiais de calibração do INEP para o ENEM 2024. A base é muito mais robusta que a de 2016: são 5.550 registros de itens, cobrindo todas as 4 áreas do conhecimento (Linguagens, Humanas, Natureza e Matemática) e 8 cores de prova — Azul, Amarela, Verde, Laranja, Roxa, Branca, Cinza e Leitor de Tela.
Identificamos 379 itens únicos que aparecem em pelo menos duas cores de prova. E a variação de posição continua grande: em média 31 posições de diferença, com máximo de 42 posições.
Ou seja, o ENEM continua embaralhando forte — como esperado. Mas e os parâmetros?
Variação ZERO. Todos os 379 itens têm exatamente os mesmos parâmetros A (discriminação), B (dificuldade) e C (acerto casual) em todas as cores de prova. O desvio padrão entre cores é 0,0000.
Pra ficar concreto, olha esses exemplos reais dos dados:
| Item | Área | Param B | Azul | Amarela | Verde | Variação |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 141775 | CN | 0,77 | posição 112 | posição 135 | posição 93 | 42 posições |
| 12877 | MT | 1,74 | posição 177 | posição 136 | posição 161 | 41 posições |
| 14995 | MT | 0,73 | posição 178 | posição 137 | posição 162 | 41 posições |
| 60335 | MT | 2,43 | posição 180 | posição 139 | posição 164 | 41 posições |
| 89141 | CN | 1,51 | posição 116 | posição 92 | posição 133 | 41 posições |
Percebe? O item 141775 aparece na posição 93 de um caderno e na 135 de outro — 42 posições de diferença. Mas o parâmetro B é 0,77 nos dois. Idêntico. Isso vale pra todos os 379 itens analisados.
Comparando 2016 e 2024
A diferença é gritante. Em 2016, o princípio da invariância da TRI estava sendo violado — o mesmo item tinha parâmetros diferentes em cadernos diferentes. Em 2024, os parâmetros são fixos em todas as cores. A invariância está preservada.
A variação de posição entre cadernos continua similar (até 43 posições em 2016, até 42 em 2024). O que mudou foi o tratamento que o INEP dá a isso. O INEP provavelmente adotou uma combinação de estratégias:
Calibração unificada: os parâmetros são estimados considerando todas as aplicações do item simultaneamente. Em vez de calibrar cada caderno separadamente (o que causava o problema em 2016), o INEP gera parâmetros médios que se aplicam a todas as cores.
Procedimentos de equating: ajustes nas escalas de proficiência entre as diferentes cores que compensam possíveis efeitos de posição na pontuação final.
Mitigação direta: estudos como o de Franklin et al. provavelmente influenciaram o INEP a revisar seus métodos, buscando neutralizar o impacto da posição na calibração dos itens.
O que isso significa pra você
Sua nota é justa. Não importa se você pegou o caderno Azul, Amarelo, Verde ou qualquer outra cor. O INEP garante que o mesmo item vale a mesma coisa em qualquer posição. A história de “fulano se deu mal porque pegou o caderno X” não se sustenta pelos dados.
O ENEM evoluiu. O problema identificado em 2016 foi corrigido. Antes, candidatos com o mesmo nível de proficiência poderiam receber notas diferentes por causa do caderno. Hoje, os parâmetros são fixos na calibração, independentemente da posição — o que garante maior equidade na avaliação.
Foco total na preparação. Não perca tempo com “qual caderno é melhor” ou “qual cor favorece mais”. Todos são equivalentes. Concentre sua energia no que realmente faz diferença: dominar as questões fáceis e médias com consistência, gerenciar bem seu tempo de prova, e manter a calma nas últimas questões.
Resumindo
Em 2016, pesquisadores descobriram que a posição de uma questão no caderno do ENEM afetava sua dificuldade calculada pela TRI. Isso era um problema de equidade — alunos iguais podiam tirar notas diferentes por causa da sorte no caderno.
Em 2024, analisamos 379 itens em múltiplas cores de prova e encontramos variação ZERO nos parâmetros. O desvio padrão entre cores é literalmente 0,0000. O INEP corrigiu o problema, o princípio da invariância está sendo respeitado, e a nota do ENEM hoje é mais justa do que nunca.
Esse tipo de análise só é possível com acesso aos microdados oficiais do INEP e expertise em Teoria de Resposta ao Item. Na XTRI, é exatamente isso que fazemos — transformamos dados em informação útil pra quem realmente precisa.
Comparativo 2024 realizado pelo professor Alexandre Emerson Melo de Araújo e XTRI
Referências: Franklin, L. M. et al. “Efeito de posição na dificuldade dos itens do Enem.” Congresso Brasileiro de Avaliação Educacional — ABAVE, 2016. | Dados de calibração: INEP, Itens da Prova ENEM 2024.
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