Existe uma crença quase religiosa entre quem mira medicina: é preciso acertar tudo, em todas as áreas, para alcançar a famosa faixa dos 40+ por prova. A coordenação da sua escola repete isso, os cursinhos repetem isso, e você provavelmente já internalizou. O problema é que, a partir de um certo patamar, as questões que definem sua nota no ENEM simplesmente deixam de existir — e a prova para de medir você.
Não é opinião. Fui direto aos parâmetros oficiais de cada item do ENEM 2025 e fiz uma pergunta objetiva ao meu código: quantas questões daquela prova conseguem distinguir um aluno de 750 pontos de um aluno de 900?
A resposta foi desconfortável:
– Linguagens: zero questões.
– Humanas: zero questões.
– Natureza: zero questões.
– Matemática: dez questões.
Não é força de expressão nem arredondamento. Em três das quatro provas de 2025, não havia um único item calibrado em nível suficiente para separar esses dois candidatos.
Por que isso acontece: o parâmetro b explica tudo
Cada questão do ENEM carrega um parâmetro de dificuldade — o famoso b — que vive na mesma escala da sua nota. Isso permite uma tradução direta e bem didática: dá para dizer, em pontos, qual é o teto de dificuldade de cada caderno.
Veja os tetos de 2025:
1. A questão mais difícil de Linguagens estava no nível de 746 pontos.
2. A mais difícil de Humanas, 785 pontos.
3. A mais difícil de Natureza, 788 pontos.
4. A mais difícil de Matemática, 924 pontos.
Leia de novo o primeiro item. Em Linguagens, quem alcançou 750 pontos já havia ultrapassado a questão mais difícil que existia naquele caderno. Não restava absolutamente nada ali capaz de exigir mais dele.
Só Matemática tinha território acima desse patamar: oito itens com dificuldade superior a 800 pontos. As outras três provas somadas não tinham um sequer.
O que sobra quando não há mais nada a provar
Agora olhe pela perspectiva de quem está na faixa dos 700 pontos em Linguagens. Dos 153 itens da prova, 152 eram questões com 90% ou mais de chance de acerto. Sobra uma. Uma única questão, em toda a prova, ainda representava algum desafio real.
Em Humanas sobravam 4. Em Natureza, 5. Em Matemática, 32.
Isso muda completamente a natureza do jogo. Nessas três áreas, as questões que definem sua nota no ENEM não constroem mais nada para você — elas só podem destruir. Sua nota deixa de ser edificada por acertos e passa a ser corroída por erros.
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Quanto custa um erro bobo nesse patamar
Separei todos os itens em que um aluno de 800 pontos tinha 95% ou mais de chance de acerto e calculei o impacto de errar um deles.
A mediana é brutal. Esse tipo de erro é cerca de:
– 36 vezes mais provável em um aluno de 700 do que em um de 800, em Linguagens;
– 37 vezes, em Humanas;
– 42 vezes, em Natureza;
– 24 vezes, em Matemática.
E há itens muito piores. No quartil superior, a razão ultrapassa 90 vezes em Linguagens e 126 vezes em Natureza.
Traduzindo: uma alternativa trocada no cartão-resposta, uma leitura apressada do enunciado, um lapso de cansaço na questão 40. É isso que derruba sua nota de 800 para 700 — não a ausência de conteúdo avançado.
Matemática: a única área onde ainda dá para subir
As dez questões que separavam 800 de 900 em Matemática estavam espalhadas por habilidades diferentes da matriz. Não era um assunto isolado, daqueles que você ataca em uma semana de maratona.
A implicação prática é incômoda: em Matemática, chegar aos 900 depende de amplitude, não de um tema salvador. Nas outras três áreas, chegar perto de 900 depende quase inteiramente de não errar nada.
A estratégia que nasce desses números
Se você já está na faixa dos 800 em Linguagens, Humanas ou Natureza, estudar conteúdo cada vez mais avançado tem retorno próximo de zero. A prova simplesmente não tem onde te cobrar isso.
O que ainda rende é execução:
– reler o enunciado antes de marcar;
– controlar o ritmo para não chegar exausto nas últimas questões;
– conferir o cartão-resposta com calma;
– ter disciplina para não trocar uma resposta correta por insegurança.
Em Matemática a lógica se inverte. Ali ainda existe conteúdo capaz de te diferenciar — e vale cada hora investida.
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Um aviso necessário sobre as questões que definem sua nota no ENEM
Tudo o que você leu vale especificamente para a prova de 2025. Cada edição tem sua própria calibração, e um caderno com itens mais difíceis mudaria esses números.
Mas o padrão se repete em todos os anos que analisei: as provas do ENEM foram desenhadas para medir muito bem a grande massa de candidatos — e perdem resolução justamente no topo, onde você está. Entender quais são, de fato, as questões que definem sua nota no ENEM é o que separa quem estuda muito de quem estuda certo.
Alexandre Emerson Melo de Araújo · X-TRI