Tudo o que foi decidido no seminário ABAVE/INEP com o presidente do INEP, a OCDE e os maiores nomes da avaliação educacional brasileira. Seu mapa de ação começa aqui.
A reunião que definiu o futuro do ENEM
No dia 7 de abril de 2026, em Brasília, aconteceu um dos seminários mais importantes da história recente da avaliação educacional brasileira. Organizado pela ABAVE (Associação Brasileira de Avaliação Educacional) em parceria com o INEP e a OCDE, o evento reuniu os principais arquitetos do sistema de avaliação do país para apresentar, pela primeira vez em público, os detalhes operacionais da transformação do ENEM.
Na mesa estavam nomes como Manuel Palácios, presidente do INEP; Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE e pai do PISA; Maria Helena Guimarães de Castro, criadora do SAEB e do ENEM original; Reinaldo Fernandes (USP), ex-presidente do INEP; Patrícia Vieira Nunes, diretora de avaliação da educação básica do INEP; José Francisco Soares (UFMG), também ex-presidente do INEP; e Daniel Santos, do Laboratório LEPS da USP. O CONSED foi representado pela secretária de educação do Rio Grande do Sul, Raquel Teixeira.
O que motivou a reunião foi a assinatura, em 30 de março de 2026, do Decreto 12.915 pelo presidente Lula. Esse decreto integra oficialmente o ENEM ao Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e muda, de forma definitiva, o papel do exame na educação brasileira.
“Os temas saíram do território do hipotético para um caminho de execução já definida.” Manuel Palácios, presidente do INEP
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O Decreto 12.915: o que diz e o que muda na prática
Com a publicação do decreto no Diário Oficial, o ENEM deixa de ser apenas uma porta de entrada para o ensino superior. Ele passa a cumprir uma tríplice finalidade: seleção para o ensino superior (via SISU, ProUni e FIES), certificação de conclusão do ensino médio (para maiores de 18 anos) e avaliação da qualidade das redes de ensino, produzindo indicadores educacionais nacionais.
Essa vinculação ao SAEB gera consequências concretas. Os resultados do ENEM passam a alimentar políticas de financiamento da educação, como o FUNDEB. O desempenho dos alunos da sua escola no ENEM deixa de ser um dado interno e se torna indicador público de qualidade, visível para secretarias, ministério e sociedade.
O SAEB 2025, já aplicado, continuará produzindo efeitos nos indicadores de 2026, 2027 e 2028. Os resultados do ENEM só substituirão o SAEB do ensino médio a partir de 2027, com reflexo nos indicadores oficiais a partir de 2029. Em 2026, o ENEM terá caráter de piloto para essa integração.
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O que muda na prova para o aluno
Testlets: o novo formato se expande para todas as áreas
Em 2025, o INEP estreou o modelo de testlets apenas nas provas de Linguagens e Ciências Humanas (primeiro dia). Em 2026, a expansão está confirmada: Ciências da Natureza e Matemática também adotarão o formato. Manuel Palácios anunciou que o ENEM passará a incluir “situações-problema que possam dar origem a diferentes itens, lidando com uma mesma situação”.
Na prática, o aluno encontrará um texto-base mais extenso (que pode ser um texto, gráfico, tabela, mapa ou uma combinação desses elementos), seguido de duas a quatro questões independentes entre si. Cada questão mantém sua autonomia, mas todas compartilham o mesmo contexto. Um erro de interpretação do texto-base pode comprometer mais de uma resposta.
Patrícia Vieira, diretora da DAEB/INEP, detalhou que as novas matrizes seguem uma abordagem “chão baixo, teto alto”, inspirada no PISA. Isso significa que dentro de um mesmo testlet haverá questões de diferentes níveis de dificuldade: tarefas de compreensão e identificação para estudantes iniciantes, tarefas intermediárias e tarefas de análise complexa para identificar proficiências avançadas.
Testlet não é TRI. O testlet é o formato de organização das questões na prova (um texto-base gerando múltiplos itens). A TRI, baseada no modelo logístico de 3 parâmetros (ML3P), continua sendo o modelo matemático para cálculo das notas, exatamente como sempre foi. São camadas diferentes do mesmo exame.
Novas matrizes de referência alinhadas à BNCC
A matriz de referência do ENEM não era atualizada desde 2009. Ela é anterior à BNCC, anterior ao Novo Ensino Médio e, portanto, desalinhada com o currículo que as escolas já deveriam estar implementando. As novas matrizes, segundo Manuel Palácios, são “mais sintéticas, não tão direcionadas a tarefas específicas e habilidades muito detalhadas”.
Essa síntese é intencional. Matrizes mais enxutas permitem ao INEP variar o conteúdo da prova ao longo dos anos sem gerar ansiedade. A ideia é criar uma “certa imprevisibilidade”, de modo que o aluno precise dominar competências amplas, e não treinar para padrões repetitivos de questão.
A implementação será incremental. O ENEM 2026 ainda mantém vínculo primordial com a matriz de 2009, incorporando gradativamente elementos das novas matrizes. A validação pública acontecerá entre abril e maio de 2026, com debate junto ao CONSED e organizações da área. A meta é publicar as matrizes definitivas até o final de junho de 2026.
Padrões de desempenho: agora o ENEM tem “régua oficial”
Talvez a novidade mais relevante para coordenadores seja a definição de padrões de desempenho na escala do ENEM. Até agora, o ENEM produzia uma nota contínua, sem interpretação oficial do que cada faixa significava em termos de aprendizagem. Isso muda.
O INEP conduziu, ao longo de quase um ano, uma pesquisa com professores e especialistas de todo o Brasil utilizando o método Angoff modificado, com redundância pelo método Bookmark. O resultado são pontos de corte na escala do ENEM que definem quatro níveis de proficiência.
Básico
Serão publicados cinco documentos: um padrão para cada área do conhecimento (Linguagens, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Matemática) e um para a redação. A redação ganha destaque como instrumento que poderá fornecer indicadores nacionais de produção escrita.
A certificação de conclusão do ensino médio ficou associada ao nível Básico. Porém, durante o seminário, o professor Chico Soares levantou uma ressalva importante: ao comparar o ponto de corte proposto pelo INEP com referências internacionais do PISA, ele considera que o limiar pode estar alto demais, e sugeriu que o PISA fosse usado como referência adicional de calibração. Esse ponto deverá ser debatido nos próximos meses.
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A logística: como 1,6 milhão de alunos vão fazer a prova
Hoje, o ENEM é aplicado em locais específicos selecionados pelo INEP. Para funcionar como avaliação da rede, ele precisa chegar à escola do aluno. A proposta apresentada por Manuel Palácios é um modelo híbrido.
A aplicação regular permanece no formato atual, em dois fins de semana consecutivos, em locais definidos pelo INEP. A novidade é a aplicação complementar, que será expandida para aproximadamente 15.000 escolas (de um total de 27.000 no país). Essas escolas cobrem mais de 80% dos estudantes do ensino médio.
Essa aplicação complementar acontecerá em dia letivo, no horário de aula, dentro da própria escola. Alunos de escolas próximas que não estejam na lista poderão se deslocar para participar. O INEP apresentará a lista de escolas às secretarias estaduais, que darão apoio logístico com liberação de instalações e servidores para a aplicação.
A meta para 2026 é superar a marca de 1,6 milhão de concluintes participando do ENEM. O dado de contexto que ilustra a viabilidade: Raquel Teixeira relatou que o Rio Grande do Sul saiu de 65% para 93% de participação no SAEB no ano anterior.
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O ENEM de 2028: formato final em discussão
A proposta em elaboração prevê que o ENEM de 2028, já alinhado à Política Nacional do Novo Ensino Médio, combine duas partes.
Manuel Palácios explicou a lógica: “A ideia é manter a referência com a formação geral básica, na medida em que os itinerários conhecem uma diferenciação muito grande.” Ou seja, como cada escola pode oferecer itinerários distintos, a parte comum garante equidade, enquanto a parte eletiva reconhece a especialização.
Esse formato ainda está em discussão. Patrícia Vieira lidera o processo, e a expectativa é que uma proposta formal seja apresentada em um grande seminário até julho de 2026, com implementação prevista para 2028.
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O que dizem os estudos técnicos do INEP
Uma parte importante do seminário foi a apresentação dos estudos que embasam a decisão de integrar ENEM e SAEB. Esses estudos, conduzidos pelo INEP nos últimos dois anos, ainda não foram publicados, mas os resultados foram compartilhados pela primeira vez.
ENEM e SAEB medem a mesma coisa?
O INEP aplicou uma prova combinando itens do ENEM e do SAEB em dezembro de 2025, com o objetivo de verificar se os dois instrumentos observam a mesma dimensão. O resultado: correlação de 0,75 entre os resultados por aluno, e evidência muito forte de unidimensionalidade. ENEM e SAEB estão medindo essencialmente o mesmo construto em Língua Portuguesa e Matemática. As escalas apresentam relação linear clara, o que permite a comparação entre as duas medidas.
Porém, Daniel Santos (LEPS/USP) trouxe uma ressalva relevante: quando comparados com o PISA, o SAEB explica apenas 54% da variância dos resultados. Os outros 46% vêm de fatores como clima escolar, relação professor-aluno, autoeficácia e motivação. São competências que o SAEB atual não captura, mas que o PISA avalia e que fazem diferença real na vida do aluno.
O viés de participação é grave?
O professor Reinaldo Fernandes (USP) apresentou um estudo rigoroso sobre o viés de participação no ENEM: como nem todos os alunos fazem o exame, a média da escola poderia ser distorcida. A conclusão: sim, existe viés. Os alunos que não fazem o ENEM tendem a ter notas menores. Mas o efeito é pequeno. A correlação entre as notas corrigidas e as não corrigidas é de 0,99, e o ranking de escolas muda muito pouco após a correção.
Um achado surpreendente: o SAEB também tem viés, mas na direção contrária. No SAEB, os alunos que não participam tendem a ter notas mais altas, possivelmente porque os melhores alunos já abandonaram a escola quando a prova é aplicada.
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Linha do tempo: o calendário completo
- 30 MAR 2026Decreto 12.915 assinadoENEM integrado oficialmente ao SAEB. Publicado no DOU.
- 07 ABR 2026Seminário ABAVE/INEP/OCDEApresentação pública dos estudos, matrizes e padrões de desempenho.
- ABR — MAI 2026Validação das novas matrizesDebate com CONSED, redes de ensino e organizações representativas.
- MAI — JUN 2026Publicação das matrizes e padrõesMatrizes de referência alinhadas à BNCC e padrões de desempenho oficiais.
- JUL 2026Proposta do ENEM 2028Formato com parte comum + parte eletiva apresentado em seminário nacional.
- OUT 2026CombraTRIMesas de aprofundamento técnico sobre ENEM, SAEB e TRI. São Paulo.
- NOV 2026ENEM 2026 — piloto integrado ao SAEBTestlets em todas as áreas. Aplicação complementar em 15.000 escolas.
- 2027ENEM substitui o SAEB do ensino médioResultados passam a produzir efeitos oficiais nos indicadores da educação básica.
- 2028ENEM com formato finalParte comum + parte eletiva. Alinhado à Política Nacional do Novo Ensino Médio.
- 2029Efeitos plenos nos indicadoresPrimeiros reflexos do ENEM-SAEB integrado nas políticas de financiamento educacional.
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O que a OCDE disse ao Brasil
Andreas Schleicher trouxe uma perspectiva internacional que contextualiza a mudança brasileira. Na maioria dos países da OCDE, o exame de conclusão do ensino médio determina diretamente o acesso à universidade. O Brasil é uma exceção: historicamente, o que o aluno faz no ensino médio tem pouca influência sobre seu futuro acadêmico, porque um exame separado (o ENEM ou o vestibular) decide tudo.
O risco dessa desconexão, segundo Schleicher, é que “sempre que temos uma batalha entre o exame e o currículo, o teste vence”. Se o ENEM não reflete o que a escola ensina, a escola acaba se moldando ao ENEM, e não ao currículo aprovado para o ensino médio. A integração ENEM-SAEB é, na visão da OCDE, um passo para reconectar a avaliação ao que acontece na sala de aula.
Schleicher também olhou para o futuro: em 20 anos, com inteligência artificial, as avaliações poderão ser personalizadas, permitindo que cada aluno demonstre suas forças da forma que preferir, em vez de todos serem avaliados pelo mesmo formato padronizado.
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O que sua escola precisa fazer agora
1. Incorporar testlets nos simulados do 2º semestre. Seus alunos precisam se familiarizar com o formato antes de novembro. Um texto-base extenso seguido de múltiplas questões exige estratégia de leitura diferente do modelo clássico.
2. Acompanhar a publicação das novas matrizes. A previsão é entre maio e junho de 2026. Quando saírem, revise o planejamento pedagógico para garantir alinhamento com a BNCC e com as competências que serão cobradas.
3. Preparar a equipe para os padrões de desempenho. Quando os pontos de corte forem publicados, toda a coordenação e corpo docente precisam entender o que significa cada nível na escala do ENEM, e saber exatamente onde cada aluno se encontra.
4. Internalizar que o resultado da escola no ENEM será público. A partir de 2027, o ENEM substitui o SAEB do ensino médio. Os indicadores da sua escola serão gerados pelo desempenho dos seus alunos no ENEM.
5. Investir em análise de dados com TRI. Corrigir simulados usando TRI ancorada na escala do ENEM é exatamente o que o INEP faz. Antecipar essa prática na escola não é diferencial, é necessidade.
Glossário
- Testlet
- Formato de item em que um texto-base ou situação-problema dá origem a várias questões independentes entre si. Já usado em avaliações internacionais como o PISA.
- TRI (Teoria de Resposta ao Item)
- Modelo matemático usado para calcular as notas do ENEM. Considera a coerência das respostas e o grau de dificuldade de cada questão. O modelo utilizado é o logístico de 3 parâmetros (ML3P).
- SAEB
- Sistema de Avaliação da Educação Básica. Aplicado pelo INEP, produz os indicadores oficiais de qualidade da educação. O ENEM passará a integrá-lo a partir de 2027.
- BNCC
- Base Nacional Comum Curricular. Documento normativo que define as aprendizagens essenciais ao longo da educação básica. As novas matrizes do ENEM serão alinhadas a ela.
- Método Angoff
- Metodologia para definição de pontos de corte em escalas de proficiência. Especialistas avaliam cada item do teste e estimam a probabilidade de acerto por alunos de cada nível.
- CONSED
- Conselho Nacional de Secretários de Educação. Reúne os secretários estaduais e será o primeiro interlocutor do INEP na validação das novas matrizes.
- Formação Geral Básica
- Conjunto de aprendizagens comuns a todos os alunos do ensino médio, conforme a BNCC. Base da parte comum do ENEM.
- Itinerários Formativos
- Percursos de aprofundamento escolhidos pelo aluno no Novo Ensino Médio. Serão a base da parte eletiva do ENEM a partir de 2028.
A XTRI já faz o que o novo ENEM vai exigir.
Correção TRI ancorada na escala ENEM. Análise de padrões de desempenho por aluno. Diagnóstico profundo por habilidade. Testlets nos simulados a partir do 2º semestre de 2026.
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