O novo ENEM segue o caminho que o PISA trilha há 25 anos: testlets, padrões de desempenho, teste adaptativo e parte eletiva. Esta análise técnica cruza o que foi anunciado no seminário ABAVE/INEP/OCDE com a estrutura real do PISA, e prevê o que vem pela frente.
A pergunta que ninguém fez no seminário
No dia 7 de abril de 2026, em Brasília, o seminário ABAVE/INEP/OCDE apresentou as mudanças que vão redefinir o novo ENEM entre 2026 e 2028. Testlets em todas as áreas, matrizes alinhadas à BNCC, padrões de desempenho em quatro níveis, integração ao SAEB via Decreto 12.915. Detalhamos cada uma dessas mudanças no guia completo do novo ENEM 2026-2028.
Enquanto os anúncios aconteciam, uma série de ideias circulava por baixo da superfície. Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE, dizia que o Brasil é exceção mundial porque o exame do ensino médio não determina o futuro do aluno. Mário Piacentini, do PISA, mostrava itens inovadores com interações digitais. Chico Soares passava vinte minutos explicando como o SAEB precisa aprender com o PISA. Daniel Santos demonstrava que o SAEB explica apenas 54% do que o PISA mede.
A pergunta que naturalmente emerge desse conjunto de falas: o INEP está criando um exame novo ou está adaptando o PISA para o Brasil?
Para responder, é preciso entender como o PISA realmente funciona. Não a imagem pública do ranking internacional, mas a arquitetura técnica por trás. É o que este artigo faz. Depois, cruzamos cada elemento da estrutura do PISA com as reformas anunciadas para o ENEM, e oferecemos uma previsão fundamentada do que vem pela frente até 2030.
“Sempre que temos uma batalha entre o exame e o currículo, o teste vence.” Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE
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A arquitetura do PISA: a radiografia técnica
O PISA é aplicado a cada três anos pela OCDE. Em 2022, foram 690 mil alunos avaliados em 81 países, representando aproximadamente 29 milhões de estudantes de 15 anos. A partir de 2025, o ciclo passa a ser de quatro anos.
Cada ciclo avalia três domínios principais: Leitura, Matemática e Ciências. Um deles é o domínio maior do ciclo, com mais tempo de prova e mais itens. Os outros dois são menores. Existe também um domínio inovador que rotaciona a cada ciclo.
A prova dura duas horas de avaliação cognitiva mais trinta e cinco minutos de questionário contextual. Desde 2015, o PISA é aplicado em formato digital em praticamente todos os países participantes. Em 2022, apenas quatro países ainda usavam papel.
Mas o ponto crucial, o que diferencia o PISA de qualquer outra avaliação em larga escala, está na forma como as questões são organizadas.
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A unidade: a célula fundamental do PISA
O PISA não trabalha com questões isoladas. Trabalha com o que chama de unit, ou unidade. Uma unidade é composta por um material-estímulo (texto, tabela, gráfico, infográfico, ou combinação desses elementos) seguido de várias questões que exploram diferentes aspectos e processos cognitivos a partir daquele mesmo material.
Isso é exatamente o que o INEP começou a chamar de testlet. E é exatamente o que Patrícia Vieira, diretora da DAEB/INEP, descreveu no seminário como abordagem “chão baixo, teto alto”: dentro de uma mesma unidade, coexistem questões de diferentes níveis de dificuldade.
Não é novidade para a OCDE. É o formato usado pelo PISA desde o ano 2000.
Estímulo: um infográfico não-contínuo mostrando a trajetória de um voo de balão, com gráficos, legendas e dados numéricos.
Questão 1 (368 pontos, nível 1a): localizar uma informação explícita no infográfico.
Questão 2 (449 pontos, nível 2, com crédito parcial): identificar dois tipos de transporte mencionados no texto.
Questão 3 (595 pontos, nível 4): localizar duas informações e fazer correspondência sinonímica entre a pergunta e a estrutura do texto.
O mesmo estímulo gera questões de chão baixo (368 pontos) a teto alto (595 pontos). A própria definição do que o INEP pretende fazer nas novas matrizes.
Cada item do PISA é classificado obrigatoriamente por processo cognitivo, por conteúdo e por contexto. Em Leitura, os três processos são: localizar informação, compreender e integrar, refletir e avaliar. Em Matemática: formular, empregar, interpretar. Em Ciências: explicar fenômenos, avaliar investigações, interpretar dados.
É exatamente esse conceito de demanda cognitiva que o professor Chico Soares (UFMG) apresentou no seminário como o caminho que o Brasil precisa aprender.
“Qual é meu sonho? Que no Brasil centenas, dezenas de milhares de pessoas fossem capazes de pegar um item e escrever a demanda cognitiva. A demanda nasce da tarefa. Na tarefa eu vejo as habilidades nascendo.” José Francisco Soares, UFMG, ex-presidente do INEP
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Os formatos de item: muito além da múltipla escolha
Outra diferença estrutural importante: o PISA mistura diferentes formatos de item dentro da mesma unidade. Múltipla escolha simples (com quatro ou cinco alternativas), múltipla escolha complexa (com séries de afirmações para marcar verdadeiro ou falso), resposta construída curta (uma palavra, um número, uma frase), resposta construída aberta (um parágrafo explicando raciocínio), e desde 2015 também interações digitais como drag-and-drop, clique em regiões de gráficos e uso de planilhas simuladas.
Muitos itens aceitam crédito parcial. Uma resposta incompleta pode receber um ponto enquanto uma resposta elaborada recebe dois. Isso permite diferenciar níveis de sofisticação na compreensão do aluno.
O ENEM atual usa exclusivamente múltipla escolha simples de cinco alternativas, mais a redação como único item de resposta construída. É um formato muito mais restrito.
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O teste adaptativo multiestágio: a inovação técnica mais sofisticada
Esta é, provavelmente, a diferença técnica mais importante entre os dois exames, e a que mais terá impacto no futuro do ENEM.
Desde 2018, o PISA usa teste adaptativo multiestágio (MSAT) para Leitura. Em 2022, a técnica foi estendida para Matemática. O princípio: em vez de todos os alunos receberem o mesmo caderno de prova, cada aluno recebe blocos de itens calibrados ao seu nível de proficiência.
O banco total de 234 itens foi dividido em três conjuntos de 78 itens.
Estágio 1 (Core): todos os alunos começam com um testlet de dificuldade média. Nove ou dez itens.
Estágio 2: com base no desempenho do Estágio 1, o aluno é direcionado para um testlet mais difícil (se acertou bastante) ou mais fácil (se errou bastante). Nove ou dez itens.
Estágio 3: com base no desempenho acumulado, o aluno recebe um testlet de dificuldade alta, média ou baixa. Nove ou dez itens.
Total: aproximadamente trinta itens por aluno, todos calibrados ao seu nível. Ao final, cada aluno viu itens diferentes dos demais, mas a escala TRI permite comparações rigorosas.
O efeito pedagógico e psicométrico é significativo. Alunos de baixa proficiência não perdem tempo com itens impossíveis que gerariam apenas chute. Alunos de alta proficiência não desperdiçam tempo com itens triviais que não revelam sua competência real. A precisão da medida melhora principalmente nos extremos da escala, que é onde o ENEM atual tem maior dificuldade.
O ENEM não faz nada disso. Todos os alunos recebem o mesmo caderno com os mesmos 45 itens por área. O aluno com proficiência estimada de 400 pontos e o de 800 pontos fazem exatamente a mesma prova.
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Os níveis de proficiência do PISA
O PISA organiza os resultados em seis níveis principais, com sub-níveis no extremo inferior. Cada nível tem uma descrição detalhada do que o aluno consegue fazer. Em Leitura, por exemplo:
O Nível 2 é considerado o patamar mínimo para participação plena na vida social e econômica. Abaixo disso, o aluno tem dificuldade funcional de leitura. O Brasil no PISA 2022 tinha aproximadamente metade dos seus estudantes de 15 anos abaixo do Nível 2 em Matemática.
Os quatro níveis que o INEP está implementando no ENEM (Abaixo do Básico, Básico, Adequado, Avançado) são uma versão simplificada dos seis níveis do PISA. Menos granular, mais comunicável. Mas a filosofia é idêntica: transformar uma escala contínua em categorias com significado pedagógico interpretável.
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PISA vs ENEM: a comparação direta
Com a estrutura do PISA mapeada, a comparação com o ENEM atual fica concreta.
A diferença é estrutural, não cosmética. Não é uma questão de “melhorar” o ENEM atual. É uma transformação arquitetônica completa. E ela já começou.
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A previsão: o que o INEP vai fazer até 2030
Com o que foi anunciado no seminário de 7 de abril, cruzado com a arquitetura real do PISA, é possível fazer uma previsão fundamentada da trajetória do ENEM até 2030. Dividimos em cinco fases.
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FASE 1
2025–26Testlets em todas as áreasAdoção do conceito de unit do PISA. Um estímulo, múltiplas questões. Já implementado em LC e CH em 2025, expandido para CN e MT em 2026. Mínima resistência logística porque não altera múltipla escolha nem papel. -
FASE 2
2026–27Matrizes sintéticas + padrões de desempenhoMatrizes alinhadas à BNCC, organizadas por processos cognitivos amplos e não por listas extensas de habilidades específicas. Padrões de desempenho em quatro níveis via Angoff. É a adoção do framework PISA de organização por processo cognitivo. -
FASE 3
2027–28Itens de resposta construídaManuel Palácios mencionou que o ENEM deve garantir “itens em que o estudante é solicitado a construir um argumento, a desenvolver uma resposta para além do padrão de múltipla escolha”. É a entrada de resposta curta e aberta nas provas objetivas, inicialmente dois a três itens por área, com correção assistida por IA. -
FASE 4
2028–30Teste adaptativo multiestágioQuando o ENEM migrar para o formato digital, o MSAT é a evolução natural. Três estágios, aproximadamente trinta itens por área, calibrados ao nível do aluno. Resolve o problema crônico de baixa precisão nos extremos da escala. -
FASE 5
2029+Domínios inovadoresA parte eletiva do ENEM 2028 pode evoluir para incluir domínios que o PISA já avalia mas que o ENEM nunca tocou: resolução colaborativa de problemas, pensamento criativo, literacia financeira, literacia digital, literacia em mídia e IA.
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O ENEM de 2030, previsto
Se a trajetória prevista se confirmar, o ENEM de 2030 será estruturalmente muito parecido com o PISA de 2022.
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A provocação final
O ENEM não está sendo copiado do PISA. A leitura é mais profunda e mais incômoda.
O Brasil entrou no PISA em 2000, quando Maria Helena Guimarães de Castro presidia o INEP. A justificativa na época, como ela própria relembrou no seminário, foi “entrar para aprender”. Vinte e cinco anos depois, e em suas palavras: “aprendemos muito lentamente”.
Chico Soares foi mais direto. Passou boa parte da sua fala mostrando que o SAEB mede habilidades isoladas e fragmentadas enquanto o PISA mede competências integradas e contextualizadas. Que o PISA descreve a demanda cognitiva de cada item enquanto o SAEB se limita a classificá-los por habilidade da matriz. Que o PISA tem uma filosofia de avaliação que o Brasil ainda não absorveu.
O SAEB era o veículo natural para absorver essas lições. Mas o SAEB fracassou. Baixo engajamento dos alunos, aplicação frágil, cobertura limitada da rede privada, diretores que escondiam a data da prova. Uma avaliação desenhada para medir a qualidade da educação que foi sistematicamente sabotada por quem deveria ser avaliado.
O Decreto 12.915 faz uma aposta nova: se o SAEB não funcionou como veículo, talvez o ENEM funcione. O ENEM tem engajamento genuíno do aluno (porque vale a entrada na universidade). Tem logística robusta. Tem cobertura quase universal. Tem TRI já operando há quinze anos. E agora, vai receber em três anos o que o SAEB não conseguiu receber em vinte e cinco.
O ENEM de 2030 não será o exame que você conhece hoje. Será um exame estruturalmente mais próximo do PISA: digital, adaptativo, organizado por processos cognitivos, com itens de resposta construída, padrões de desempenho em níveis, parte eletiva ligada ao itinerário formativo.
A escola que continuar preparando alunos com metodologia de treino de padrão de questão, em caderno de papel, com múltipla escolha pura, estará preparando para uma prova que já não existe. A escola que começar a desenvolver competências integradas, com diagnóstico por processo cognitivo e análise de erro por habilidade, estará alinhada com a direção da avaliação brasileira pelos próximos dez anos.
O PISA não é o modelo do novo ENEM. O PISA é o espelho no qual o ENEM está finalmente se olhando, depois de vinte e cinco anos evitando o reflexo.
A XTRI trabalha com TRI ancorada na escala do ENEM.
Correção TRI por simulado. Diagnóstico por padrão de desempenho. Análise profunda de erro por habilidade. A escola que quer estar pronta para o ENEM de 2030 começa a se preparar agora.
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