O ranking das escolas particulares no novo ENEM volta a ser publicado oficialmente a partir de 2027. No dia 7 de abril de 2026, sete dos maiores nomes da avaliação educacional brasileira se reuniram em Brasília para debater como esse ranking será produzido. Estava lá o presidente do INEP, o diretor de educação da OCDE, a criadora do ENEM original, dois ex-presidentes do INEP, uma secretária estadual representando o CONSED e um pesquisador da USP.
Estava lá o presidente do INEP, o diretor de educação da OCDE, a “mãe”do ENEM original (pelo menos uma das..rsrs), dois ex-presidentes do INEP, uma secretária estadual representando o CONSED e um pesquisador da USP.
Sete autoridades técnicas, sete posições diferentes sobre como, quando e por que ranquear escolas.
Acompanhei tecnicamente cada fala. O debate sobre o ranking das escolas particulares no novo ENEM é mais nuançado do que qualquer cobertura jornalística conseguiu capturar até agora.
Nenhum especialista foi contra o retorno do ranking. Mas cada um levantou uma preocupação técnica específica que coordenadores, mantenedores e diretores de escolas particulares precisam entender antes de novembro.
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A seguir, o que cada um disse, com fonte da fala e implicação para a gestão escolar.
1. REINALDO FERNANDES (USP, ex-presidente do INEP)
Posição: a favor, com correção estatística
Foi quem mais se dedicou ao tema do ranking no seminário. Apresentou estudo técnico de quase uma hora cruzando 1.892 escolas com dados de ENEM e SAEB 2011.
Falas principais a respeito do ranking das escolas particulares no novo ENEM:
- “Existe um problema de viés de participação no ENEM? Sim.”
- “Ele é grave? Para avaliar escolas numa cross-sectional, não. Para avaliação ao longo do tempo, pode ser problemática.”
- “Existe uma forma de corrigir? Sim, usar o corretor proposto.”
- “O viés de participação no ENEM parece não afetar significativamente a ordenação das escolas.”
Achados quantitativos que ele apresentou:
- Correlação ENEM × SAEB por escola: 0,917 em Matemática e 0,870 em Língua Portuguesa
- Correlação entre ranking corrigido e original: 0,99
- Taxa de participação ENEM: 54% / SAEB: 74%
- Direção do viés inversa: no ENEM, ausentes têm nota menor; no SAEB, ausentes têm nota maior
Impacto da correção:
- Escolas com alta participação sobem após a correção
- Escolas com baixa participação descem (as que pareciam melhores porque só os “bons” faziam o ENEM)
- A diferença entre nota corrigida e observada chega a -30 pontos em escolas com participação muito baixa, e zera quando a participação se aproxima de 100%
2. MANUEL PALÁCIOS (presidente do INEP)
Posição: a favor, defesa institucional
Apresentou o ranking como consequência natural da integração ao SAEB.
Falas principais:
- “O ENEM permitirá a produção de informação de alcance praticamente universal da rede privada de ensino.”
- “Acho que temos uma aplicação do ENEM muito mais segura, muito mais controlada, que assegura uma participação mais padronizada e certamente maior engajamento.”
- Mencionou que o INEP parou de divulgar resultados por escola em 2017 justamente por causa do viés de participação. Agora retomar isso é decisão técnica e política.
Argumento central: o ranking volta porque agora existe metodologia para tratar o viés (estudo do Reinaldo) e porque o engajamento do aluno no ENEM é muito superior ao do SAEB.
3. CHICO SOARES (UFMG, ex-presidente do INEP)
Posição: cético sobre a forma, não sobre o princípio
Não atacou o ranking diretamente, mas questionou a régua que será usada para classificar as escolas.
Falas principais:
- “Eu trabalhei também com escolas de IDEB alto. Eu falei: olha, eu não vou olhar o PISA. Desculpa, André, agora eu vou olhar o próprio Brasil.”
- “Eu fico preocupado com o fato de que estamos sugerindo uma mudança que me parece muito alta.”
O ponto técnico dele: Se o INEP fixar o nível Básico em 228 (escala SAEB) via Angoff, uma proporção enorme de escolas vai parecer pior do que realmente é. Isso porque a régua estaria calibrada para um Brasil “ideal” que ainda não existe.
Implicação para o ranking ranking das escolas particulares no novo enem: Não é que ele seja contra o ranking. É que ele teme que o ranking, com pontos de corte mal calibrados, gere desânimo em vez de diagnóstico útil. Escolas brasileiras “boas” (IDEB alto) podem aparecer como mediocres pela régua proposta.
4. DANIEL SANTOS (LEPS/USP)
Posição: cético sobre completude
Não falou diretamente sobre ranking, mas trouxe o dado mais incômodo para quem o defende cegamente.
Falas principais ranking das escolas particulares no novo enem:
- “O SAEB explica apenas 54% da variância do PISA.”
- “Os outros 46% vêm de clima escolar, relação professor-aluno, autoeficácia e motivação. Fatores que o SAEB não captura.”
- “Empresários de Brasil, Chile e Argentina dizem que o que mais falta nos jovens recém-contratados são competências socioemocionais.”
Implicação para o ranking: Uma escola pode ir bem no ranking do ENEM e mal no que realmente importa para a vida do aluno. E vice-versa. O ranking não conta a história toda.
5. RAQUEL TEIXEIRA (CONSED, secretária do RS)
Posição: a favor, com testemunho de campo
Trouxe o lado político do tema com confissão pública dos diretores.
Falas principais:
- “Diretores me confessaram: ‘Secretária, pela primeira vez na vida, eu não escondi dos alunos a data do SAEB.'”
- “Quando a gente cobrou participação no RS, fomos de 65% para 93%.”
Implicação para o ranking ranking das escolas particulares no novo enem: Diretores escondiam a data do SAEB para sabotar a avaliação da própria escola. Com o ranking do ENEM, isso não vai mais funcionar — o aluno tem incentivo próprio (entrar na faculdade) para fazer a prova. A participação será naturalmente alta.
6. ANDREAS SCHLEICHER (OCDE)
Posição: a favor, com perspectiva internacional
Não falou especificamente de ranking de escolas, mas defendeu transparência de resultados como prática internacional.
Falas principais:
- “Na maioria dos países da OCDE, o exame do ensino médio determina o futuro do aluno e tem consequências para a escola.”
- “O Brasil é uma exceção mundial.”
- “Sempre que temos uma batalha entre o exame e o currículo, o teste vence.”
Implicação para o ranking ranking das escolas particulares no novo enem: Para Schleicher, transparência de resultados por escola é prática consolidada internacionalmente. O Brasil estaria apenas se alinhando ao padrão da OCDE.
7. MARIA HELENA GUIMARÃES DE CASTRO (criadora do ENEM)
Posição: a favor, com olhar histórico
Lembrou o histórico de divulgação do ENEM por escola e os problemas que levaram à suspensão em 2017.
Falas principais no ranking das escolas particulares no novo enem:
- “Entramos no PISA em 2000 para aprender. Aprendemos muito lentamente.”
- “Há muitas incertezas sobre como avaliar os itinerários.”
Implicação para o ranking: Não criticou o retorno do ranking, mas alertou que a estrutura do Novo Ensino Médio (com itinerários muito diversos por escola) complica a comparabilidade dos resultados. Como comparar uma escola com itinerário de Saúde com outra que oferece itinerário de Tecnologia?
Síntese da XTRI: o que aparece no Ranking das escolas particulares no novo ENEM quando todo mundo concorda
| Posição | Quem | Linha |
|---|---|---|
| Favorável + técnico | Reinaldo Fernandes | “O viés existe mas é corrigível, e a ordenação muda pouco.” |
| Favorável + institucional | Manuel Palácios | “É consequência natural da integração ao SAEB.” |
| Favorável + político | Raquel Teixeira | “Vai acabar com a sabotagem dos diretores.” |
| Favorável + internacional | Andreas Schleicher | “Brasil estava atrás do mundo nesse aspecto.” |
| Favorável + cético da régua | Chico Soares | “OK ranquear, mas a régua proposta está alta demais.” |
| Favorável + cético do escopo | Daniel Santos | “OK ranquear, mas não conta a história toda.” |
| Cautelosa + histórica | Maria Helena | “OK ranquear, mas itinerários complicam comparação.” |
Não houve voz contra o ranking em si. A divergência foi sobre como ranquear, não se deve ranquear.
Ranking das escolas particulares no novo ENEM – O ângulo que ninguém está explorando
Essa última observação é importante. Em discussões educacionais brasileiras, geralmente há vozes fortes contra ranking de escolas (associações de professores, mantenedores, pais, alunos, curiosos, sindicatos, alguns acadêmicos). Nenhuma dessas vozes estava na mesa do INEP em 7 de abril.
Sua escola particular está pronta para o ranking oficial?