NOVO ENEM 12 jun 2026 • 14 min de leitura

RANKING ENEM POR ESCOLA: Por que Medir o Sucesso Escolar Pode Corromper o Ensino

Alexandre Emerson
Equipe XTRI
X-TRI Mentoria ENEM para Sua Escola

O Fim de uma Era e o Paradoxo da Medição

RANKING ENEM POR ESCOLA – A extinção do “Ranking do Enem por escolas”, determinada pelo Ministério da Educação (MEC) em 2017, representa mais do que uma mudança administrativa; é o reconhecimento de um colapso ético-pedagógico. O ser humano possui um apetite quase instintivo por classificações, buscando no topo das tabelas uma bússola para a excelência.

Contudo, ao transformarmos o Exame Nacional do Ensino Médio em um troféu de marketing, permitimos que a lógica da propaganda canibalizasse a lógica do aprendizado.

O paradoxo é cruel: no momento em que a nota deixa de ser um diagnóstico para se tornar uma finalidade absoluta, a medição deixa de refletir a realidade e passa a distorcê-la. O objetivo educacional se perdeu em meio ao ruído das campanhas publicitárias.

O Enem por Escola, vale lembrar, foi divulgado oficialmente pelo Inep entre 2005 e 2015. A decisão de descontinuá-lo veio acompanhada de um diagnóstico técnico: o exame mede proficiência individual de quem se inscreve voluntariamente, não a qualidade institucional de uma escola. A amostra de cada escola é auto selecionada, e médias calculadas sobre amostras auto selecionadas não sustentam comparações justas.

Linha do tempo do ranking de escolas no Brasil: criação do Enem por Escola em 2005, última edição em 2015, extinção pelo MEC em 2017, integração do ENEM ao Saeb em 2026 e entrada nos repasses do Fundeb em 2027
Title: Morte e ressurreição do ranking de escolas no ENEM
De 2005 a 2027: o ciclo completo do indicador que o Estado extinguiu e agora ressuscita. Fontes: Inep, Decreto de 30/03/2026, Portaria MEC 422/2026.

A Lei de Campbell: Quando o Indicador Vira o Alvo

A sociologia clássica já alertava para os perigos de métricas de alto impacto. Donald T. Campbell, no artigo “Assessing the Impact of Planned Social Change” (1979), formulou uma máxima que hoje ressoa com precisão cirúrgica no sistema educacional brasileiro.

Quando uma estatística quantitativa, como a média do Enem, torna-se a moeda de troca para prestígio social ou bônus financeiros, ela deixa de ser uma ferramenta de monitoramento confiável. O valor diagnóstico do dado desmorona no instante em que ele se torna um alvo de pressões externas.

“Quanto mais qualquer indicador social quantitativo for usado para a tomada de decisões sociais, mais sujeito ele estará a pressões de corrupção e mais apto será a distorcer e corromper os processos sociais que pretende monitorar.”

Campbell escreveu isso analisando justamente testes educacionais padronizados nos Estados Unidos. O fenômeno tem primos próximos na literatura: a Lei de Goodhart (“quando uma medida vira meta, deixa de ser uma boa medida”) e o conceito de teaching to the test, amplamente documentado após o No Child Left Behind americano (2002), que vinculou financiamento escolar a resultados de testes e gerou uma onda documentada de estreitamento curricular e fraudes, sendo o escândalo de Atlanta (2009-2011), em que dezenas de educadores foram condenados por adulterar gabaritos, o caso mais emblemático.

No Brasil, o indicador que deveria avaliar a transição do jovem para o ensino superior foi sequestrado para servir de régua para a qualidade de instituições inteiras, forçando escolas a abandonarem sua missão pedagógica para “bater metas” artificiais.

Diagrama da Lei de Campbell aplicada à educação: indicador vira alvo de alto impacto, gera gaming como exclusão de alunos e salas de elite, e corrompe o processo que deveria monitorar
O ciclo de corrupção da métrica descrito por Donald T. Campbell em 1979, agora com o Fundeb como novo vetor de alto impacto.

O “Gaming” do Sistema: A Exclusão como Estratégia – RANKING ENEM POR ESCOLA

O cenário de competitividade extrema gerou o que Eduardo Capocchi, em sua dissertação na FEA-USP (“Avaliações em larga escala e políticas de responsabilização na educação: evidências de implicações indesejadas no Brasil”, 2017), define como gaming: a manipulação deliberada das regras para inflar resultados.

Uma das táticas mais perversas desse fenômeno é a exclusão não aleatória de alunos. Para proteger a média institucional, escolas praticam um filtro perverso: estudantes com baixa proficiência são sistematicamente desestimulados, retidos ou marginalizados durante as janelas de avaliação.

A literatura internacional corrobora: o estudo clássico de Figlio e Getzler (2002, NBER) demonstrou que escolas da Flórida reclassificavam alunos de baixo desempenho como portadores de necessidades especiais para excluí-los das estatísticas de accountability.

O mecanismo é o mesmo, mude apenas o CEP.

Essa manobra fere de morte o princípio da equidade. Alunos que enfrentam maiores dificuldades, e que deveriam receber o suporte mais robusto do sistema, são transfigurados em “pesos mortos” para o marketing escolar. A escola deixa de ser um espaço de apoio para se tornar uma vitrine, onde apenas os alunos que garantem o brilho do escore são bem-vindos.

O Marketing do Desempenho e as Salas de Elite – RANKING ENEM POR ESCOLA

A sofisticação da desinformação atingiu seu ápice com a criação das chamadas “salas de elite”. Conforme revelado em investigações publicadas pelo G1, instituições criavam turmas isoladas com alunos de altíssimo desempenho, concentrando recursos e atenção nestes grupos apenas para utilizar seus dados segregados em peças publicitárias. O resultado médio dessa “ilha de excelência” era vendido aos pais como se representasse a qualidade integral da escola.

Para o ex-ministro Mendonça Filho, a manutenção desses rankings estatais era incompatível com a missão do Estado. Segundo ele, o sistema promovia diversos desserviços à sociedade:

  • Instrumentalização do Estado: o uso de dados públicos como fonte de publicidade privada e lucro.
  • Dissimulação pedagógica: a ocultação de gargalos de aprendizado reais por trás de médias infladas.
  • Desinformação do cidadão: a criação de uma falsa hierarquia de qualidade, ignorando variáveis socioeconômicas fundamentais.

Há ainda evidência quantitativa recente sobre o peso do contexto: o estudo de Reinaldo Fernandes (USP), apresentado no seminário ABAVE/INEP de abril de 2026 com dados de 1.892 escolas, mostrou correlações altíssimas entre ENEM e SAEB (0,917 em Matemática e 0,870 em Língua Portuguesa) e demonstrou que o viés de autosseleção do ENEM é estatisticamente corrigível, com a correlação entre o ranking corrigido e o original chegando a 0,99.

Tradução: o problema do ranking nunca foi apenas estatístico. Era de incentivos.

O Efeito “Lake Wobegon” e as Fraudes Ingênuas

O desejo patológico de parecer estar sempre “acima da média” remete ao Efeito Lake Wobegon, termo cunhado pelo médico John Cannell em 1987, ao descobrir que todos os 50 estados americanos reportavam resultados “acima da média nacional” em testes padronizados, uma impossibilidade aritmética.

Na busca por esse prestígio de curto prazo, o sistema brasileiro gerou o que Capocchi denomina “fraudes ingênuas”: atos de permissividade com colas ou auxílio indevido de professores durante os testes, frequentemente ignorando protocolos básicos como a existência de múltiplos cadernos de prova com questões em ordens diferentes.

Dados extraídos do trabalho de Capocchi mostram um sinal de alerta: houve aumento substancial nas indicações de fraudes e manipulações em 2015 em comparação a 2013, possivelmente associado a mudanças nas exigências de participação mínima para validação das notas.

O Novo ENEM 2026-2028: O Indicador Volta a Ser Alvo, Agora Oficialmente

Aqui o texto ganha sua camada mais atual e mais inquietante. Em 30 de março de 2026, o governo federal sancionou o decreto que integra o ENEM ao Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), e a Portaria nº 422/2026 do MEC detalhou a operação: o exame ganha caráter censitário para concluintes da rede pública, com inscrição automática, e passa a ser o instrumento oficial para avaliar a qualidade do ensino médio, produzir indicadores educacionais e monitorar metas do Plano Nacional de Educação.

A mudança mais sensível do ponto de vista da Lei de Campbell está no financiamento: a partir da edição de 2027, os resultados do ENEM serão utilizados no cálculo dos indicadores educacionais que baseiam os repasses do Fundeb às escolas e estados.

Ou seja, exatamente o ingrediente que Campbell identificou como gatilho da corrupção do indicador, consequências financeiras diretas atreladas ao escore, acaba de ser oficializado em escala nacional.

O cronograma da reforma é conhecido: testlets em todas as áreas já em 2026, novas matrizes alinhadas à BNCC, quatro níveis de desempenho definidos por metodologias de Angoff e Bookmark, o ENEM substituindo o SAEB do Ensino Médio em 2027, e o formato de prova comum mais eletivas em 2028.

E há um detalhe de enorme peso simbólico: pela primeira vez, as escolas privadas entram em uma avaliação oficial censitária de qualidade. O ranking que o MEC extinguiu pela porta da frente em 2017 retorna, com outra roupagem e outra finalidade, pela porta dos fundos da política pública.

O Paradoxo Central: O Ranking Que o Estado Matou, o Estado Ressuscita

E aqui reside a ironia histórica que dá ao tema sua urgência. Desde 2017, quando o MEC extinguiu o Enem por Escola, a rede privada vivia em um ponto cego oficial. A nota informativa do Inep sobre o Ideb 2023 é explícita: escolas privadas estão na lista de instituições para as quais o índice não é calculado no nível de escola.

O SAEB sempre foi censitário apenas na rede pública, com participação meramente amostral da rede privada. Resultado: a única “régua” pública das escolas particulares eram os rankings extraoficiais montados pela imprensa e por empresas a partir dos microdados do ENEM, exatamente o uso publicitário que motivou a extinção.

Com o Novo ENEM, esse arranjo se inverte por completo. O decreto de março de 2026 estabelece que os dados do exame serão usados para calcular o desempenho das escolas das redes públicas e privadas.

Pela primeira vez na história da avaliação educacional brasileira, a rede privada entra integralmente em um indicador oficial de qualidade por escola, com metodologia estatal, escala nacional e periodicidade anual.

O paradoxo, portanto, é triplo:

  1. O Estado que extinguiu o ranking por considerá-lo um “desserviço” agora institui um ranking oficial, mais abrangente que o original.
  2. As escolas privadas, que por nove anos usaram a ausência de avaliação oficial como terreno livre para marketing baseado em recortes convenientes (as “salas de elite”), agora serão medidas por inteiro, sem controle sobre a amostra.
  3. O instrumento é o mesmo ENEM, mas a autosseleção que invalidava o ranking antigo desaparece com o caráter censitário, retirando das escolas o principal argumento técnico contra a comparação.

Não se trata mais de “se” haverá ranking, e sim de quem o constrói e com quais salvaguardas. O Enem por Escola informal da imprensa será substituído (ou complementado) por um indicador de Estado, com peso em política pública e financiamento.

Para as escolas privadas, isso significa o fim de uma era confortável: a narrativa institucional deixará de ser controlada pelo departamento de marketing e passará a ser confrontada com um dado oficial, censitário e auditável.

Isso é necessariamente ruim? Não. Há diferenças estruturais importantes em relação ao ranking antigo:

  • Censitário versus autosselecionado: com inscrição automática da rede pública e expectativa de cerca de 80% dos concluintes fazendo a prova na própria escola, o viés de participação que invalidava o ranking antigo é drasticamente reduzido. A “exclusão não aleatória” fica mais difícil quando todos estão inscritos por padrão.
  • Diagnóstico versus propaganda: o objetivo declarado é produzir indicadores para políticas públicas e identificar desigualdades, não alimentar outdoors.
  • Níveis de desempenho versus média aritmética: a adoção de quatro níveis interpretáveis (via Angoff e Bookmark) desloca a conversa de “qual escola tem a maior média” para “quantos alunos atingiram o nível adequado”, uma métrica pedagogicamente mais honesta.

Mas as armadilhas de Campbell não desaparecem; elas se transformam.

Se repasses do Fundeb dependem do escore, a pressão por gaming migra da escola privada (marketing) para a rede pública (financiamento). Os riscos previsíveis incluem: estreitamento curricular em direção ao que o ENEM mede, manipulação de fluxo escolar para “segurar” alunos fracos fora da coorte de concluintes, e as velhas fraudes ingênuas de aplicação, agora com incentivo financeiro estatal.

O aumento de fraudes detectado por Capocchi em 2015, justamente após mudança nas regras de participação mínima, é o precedente histórico exato do que pode acontecer quando se mexe nas regras do jogo com dinheiro na mesa.

Ideb: A Velha Armadilha em Novo Contexto

Com a queda do ranking do Enem, o Ideb consolidou-se como balizador da qualidade, combinando fluxo escolar com proficiência. Mas o Ideb nunca foi imune às vulnerabilidades descritas por Campbell, e a literatura nacional já documentou retenção estratégica de alunos e manipulação de taxas de participação onde há bônus docente atrelado ao índice.

Com o Novo ENEM assumindo o papel de SAEB do Ensino Médio a partir de 2027, o Brasil terá a oportunidade rara de redesenhar o sistema de indicadores. A pergunta é se aprenderemos com o ciclo anterior ou se apenas trocaremos o nome da métrica corrompida.

Conclusão: O Desafio de Medir sem Destruir

É imperativo dissociar a avaliação do estudante da avaliação da instituição, ou, quando a avaliação institucional for inevitável, como agora será, desenhá-la com as salvaguardas que a literatura de 40 anos de accountability educacional já mapeou: múltiplos indicadores, correção por nível socioeconômico, medidas de progresso (valor agregado) em vez de fotografias absolutas, e auditoria estatística sistemática de padrões anômalos de resposta.

O Novo ENEM 2026-2028 nasce com méritos técnicos reais: censitário, alinhado à BNCC, com níveis interpretáveis de desempenho. Mas nasce também carregando o gene que Campbell identificou em 1979: um indicador de alto impacto, com consequências financeiras, aplicado a instituições. A diferença entre diagnóstico e distorção não estará no decreto. Estará na governança, na transparência dos microdados e na disposição de auditar quem joga o jogo.

Se o sucesso de uma escola é medido apenas por uma nota, o que estamos, de fato, ensinando às nossas crianças sobre o valor da honestidade e do aprendizado real?


Fontes e referências

  1. CAMPBELL, Donald T. Assessing the Impact of Planned Social Change. Evaluation and Program Planning, v. 2, n. 1, 1979.
  2. CAPOCCHI, Eduardo R. Avaliações em larga escala e políticas de responsabilização na educação: evidências de implicações indesejadas no Brasil. Dissertação (Mestrado), FEA-USP, 2017.
  3. FIGLIO, David; GETZLER, Lawrence. Accountability, Ability and Disability: Gaming the System. NBER Working Paper 9307, 2002.
  4. CANNELL, John J. Nationally Normed Elementary Achievement Testing in America’s Public Schools. 1987 (origem do Efeito Lake Wobegon).
  5. INEP. Enem por Escola (série histórica 2005-2015). Nota de descontinuidade, 2017.
  6. BRASIL. Decreto Presidencial de 30/03/2026, integrando o ENEM ao Saeb. Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-03/enem-passa-compor-saeb-e-vai-medir-qualidade-do-ensino-no-brasil
  7. MEC. Portaria nº 422/2026, Política Nacional de Avaliação e Exames da Educação Básica. Cobertura: https://querobolsa.com.br/revista/o-enem-vai-mudar-a-partir-de-2026
  8. FERNANDES, Reinaldo (USP). Estudo de correlação ENEM x SAEB com 1.892 escolas, apresentado no seminário ABAVE/INEP/OCDE, abril de 2026.
  9. TAVARES, Priscilla; MORIKAWA, Mariah. Propostas para o Novo Saeb: o debate atual. Estudos Avançados, v. 39, n. 115, 2025. DOI: 10.1590/s0103-4014.202539115.007
  10. G1 Educação. Reportagens sobre “salas de elite” e uso publicitário do ranking do ENEM.
  11. INEP. Nota Informativa Ideb 2023 (confirma exclusão de escolas privadas do cálculo do Ideb por escola): https://download.inep.gov.br/ideb/nota_informativa_ideb_2023.pdf
  12. Caso Atlanta Public Schools cheating scandal (2009-2015), referência internacional de fraude induzida por accountability de alto impacto.

    Agência Brasil (decreto ENEM-Saeb): https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-03/enem-passa-compor-saeb-e-vai-medir-qualidade-do-ensino-no-brasil

    Inep Nota Informativa Ideb 2023: https://download.inep.gov.br/ideb/nota_informativa_ideb_2023.pdfEstudos Avançados (Novo Saeb): https://doi.org/10.1590/s0103-4014.202539115.007

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